Catarata não pode ser tratada por meio de mutirão

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O atendimento personalizado no pré-operatório é fundamental para que as cirurgias de catarata obtenham sucesso (Foto: Agência Brasília)
O atendimento personalizado no pré-operatório é fundamental para que as cirurgias de catarata obtenham sucesso (Foto: Agência Brasília)
(Last Updated On: 04/04/2018 11:42)

A catarata no Brasil é um grande desafio das políticas públicas de saúde. Com o envelhecimento da população, é exigido uma maior atenção dos gestores na busca de um tratamento eficaz para a doença, que não coloque a saúde das pessoas em risco.

Hoje no Brasil, muitos municípios passaram a adotar os mutirões como instrumento para reduzir o número de pessoas acometidas pela doença. A catarata é uma lesão ocular que atinge e torna opaco o cristalino, que é a lente natural dos olhos. Se não for cuidado de forma correta pode levar o paciente a ficar cego.

Vale lembrar, que o sistema de mutirões foi adotado no Brasil pelo ex-ministro da Saúde, José Serra, na década de 1990. A proposta naquela época era reduzir as grandes filas de espera para a realização de cirurgias, não só de catarata como de outras doenças. Mas, o que era uma situação de exceção acabou virando uma prática em diversas cidades do país.

O sistema de mutirões de catarata tem recebido fortes criticas de especialistas. A Sociedade Mineira de Oftalmologia se posiciona contra esse modelo de atendimento. Em carta aos médicos especialistas, a entidade chama a atenção para as empresas que transformaram os mutirões em um grande comércio.

A carta alerta: “é importante que o cirurgião acompanhe o seu paciente, não só para que possa diagnosticar e tratar precocemente eventuais complicações, como também para dar o indispensável apoio psicológico ao operado”.

No modelo de mutirões adotado em boa parte do país tudo é resolvido em um único dia. Os pacientes não recebem acompanhamento no pré-operatório e, muito menos, no pós-operatório. Um agravante é que nem sempre as cirurgias são feitas em ambientes com boa higiene, o que pode provocar sérios danos à saúde do paciente.

O caso mais emblemático ocorreu em janeiro de 2016, em São Bernardo do Campo, São Paulo. O mutirão de catarata organizado pela prefeitura local deixou um saldo trágico: 22 pessoas ficaram cegas, oito pessoas tiveram o globo ocular retirado, 13 perderam a visão de pelo menos um olho, e uma pessoa morreu. Todos os pacientes tiveram uma endolftalmite, inflamação causada por uma bactéria.

Um laudo elaborado pela própria prefeitura de São Bernardo foi conclusivo: houve seguidas falhas de higienização de instrumentos durante o mutirão de catarata. De acordo com a sindicância, a empresa contratada para fazer as cirurgias não esterilizou os instrumentos.

Além disso, foram constatados outros erros graves nos procedimentos da equipe médica que não teria lavado as mãos, partilhou instrumentos perfurantes entre os pacientes sem esterilizar, não trocou os aventais cirúrgicos, pacientes não usaram proteção ocular após a cirurgia, e a realização de 27 cirurgias em um único dia.

O caso de São Bernardo não é único, em 2014, em Barueri, também na Grande São Paulo, 12 pessoas ficaram cegas após um mutirão de catarata realizado no Hospital Municipal, a denuncia foi feita na época pelo programa Fantástico da Rede Globo.

A Sociedade Sociedade Mineira de Oftalmologia quer evitar que novos casos como relatados anteriormente possam se repetir. A entidade faz um trabalho de conscientização junto aos profissionais médicos para não se associarem a grupos que visam somente lucros e não se preocupam com a integridade dos pacientes.

A Pesquisa de Saúde divulgado pelo IBGE, em 2014, chama a atenção para um dado preocupante. A catarata atinge 28,7% dos brasileiros com mais de 60 anos, nesta faixa etária já são mais de 26 milhões de pessoas idosas no país. A população está envelhecendo e as políticas de saúde precisam ser mais assertivas, principalmente, no caso das cirurgias de catarata.

É preciso ter uma visão de longo prazo, como medidas que ajudem efetivamente a melhoria da qualidade de vida das pessoas portadoras da doença, que se não cuidada a tempo reduz a produtividade das pessoas. O que se pretende é chamar a atenção das prefeituras, já que a catarata não pode ser tratada por meio de mutirão.

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